“O verdadeiro conhecimento vem de dentro”
Sócrates
A diversidade do real apresenta diferentes formas de conhecimento: mito, filosofia, teologia, senso comum, ciência etc. No entanto, as primeiras concepções de produção de conhecimento estão ligadas ao pensamento místico-mágico-teológico.
O mito, para as sociedades primitivas, era uma forma de conhecimento produzido pelo homem, que tinha como função descrever, explicar, dar normas, dizer as origens, ou seja, desempenhar o papel da teologia, da filosofia, da ciência, saberes que foram se estruturando racionalmente ao longo da história. As suas raízes se encontram em filósofos pré-socráticos ou de “filósofos da physis” ou “filósofos da natureza” como Pitágoras de Samos e Heráclito de Éfeso.
O mito explicou o mundo no período Homérico (século XII a VIII a.C.), através de forças ou seres considerados superiores aos humanos, seja de uma realidade completa como o cosmos, seja de partes dessa realidade. Mito é uma narrativa dos tempos fabulosos ou heroicos, de significação simbólica, geralmente ligada à cosmologia e relativa a deuses “encarnadores” das forças da natureza e/ou a aspectos da condição humana; representação de fatos ou personagens reais, exagerados pela imaginação popular, pela tradição; ideia falsa da realidade; imagem simplificada, não raro ilusória, de pessoa ou acontecimento, elaborada ou aceita pelos grupos humanos, e que tem significativo papel em seu comportamento; coisa inacreditável, irreal.
Tal conhecimento não é questionado pois é objeto de crença e de fé, uma espécie de comunicação de um sentimento coletivo que é transmitido através de gerações. No mito, a noção de origem se confunde com nascimento, e, a noção de produzir, com a de gerar. Apesar dos avanços da ciência, o mito ainda é um conhecimento que perpassa os séculos, incluindo o atual, sendo respeitado por muitas pessoas como o verdadeiro conhecimento, ou seja, aquele que orienta as suas vidas.
A filosofia consiste no estudo caracterizado pela intenção de ampliar a compreensão da realidade, para apreendê-la na sua inteireza, quer pela busca da realidade capaz de abranger todas as outras, o Ser, quer pela definição do instrumento capaz de apreender a realidade, o pensamento, tornando-se o homem tema inevitável de consideração; conjunto de estudos ou considerações que tentam reunir uma ordem determinada de conhecimentos (que expressamente limita seus campos de pesquisa, por exemplo, à natureza ou à sociedade ou à história ou a relações numéricas etc); razão, sabedoria.
A teologia estuda as questões referentes ao conhecimento da divindade, de seus atributos e relações com o mundo e com os homens, além da verdade religiosa. Este tipo de conhecimento teve maior espaço durante a crise do Império Romano, quando o Cristianismo surgiu como um questionamento a ideias e valores da sociedade escravista, pregando a crença na igualdade de todos os homens, oferecendo segurança e proteção à população, que doava terras e pagava tributos para alcançar a salvação. A influência da Igreja se expressou nas ideias jurídicas, políticas, éticas e morais, passando, essa instituição, a pensar por todos os homens, fazendo predominante o conhecimento que gestava.
O senso comum consiste em um conjunto de opiniões tão geralmente aceitas em época determinada que as opiniões contrárias aparecem como aberrações individuais. Ele é feito pelo homem comum, de maneira casual, espontânea e baseada no bom senso. Suas características principais são: – ametódico e assistemático: feito sem planejamento rigoroso; – conhecido como conhecimento empírico: nasce da tentativa do homem resolver problemas da sua vida diária, portanto, utilitarista; – considerado como um conhecimento ingênuo; – fragmentado; – frequentemente um conhecimento subjetivo, pois depende de juízos pessoais sobre as coisas; – um conhecimento restrito a algumas pessoas.
O papel que o senso comum exerce no campo do conhecimento, principalmente do conhecimento científico é discutível. Isto pode ser visto, por exemplo, na divergência entre duas posições epistemológicas.
A primeira defende que esta forma de conhecimento representa obstáculo ao conhecimento científico pela falta de fundamentação e análise crítica do seu conteúdo, portanto, impedimento à compreensão do objeto científico, objeto construído. Então, uma vez que se acredita na continuidade entre a primeira e a segunda forma de conhecimento, trabalha-se para mantê-la, reforçando-a. Do bom senso, quer-se fazer sair lentamente, suavemente, os rudimentos do saber repetitivo.
A segunda propõe uma nova lógica do conhecimento do senso comum como o ponto de partida para o pensamento racional (científico e filosófico), transformando toda a ciência e toda a filosofia em senso comum esclarecido. Nesta perspectiva, é impossível “pensar” em conhecimento científico, eliminando a força e a presença do senso comum. É preciso sim, desmistificar o lado obscuro do senso comum, esclarecer os seus dados vagos e inseguros. Mesmo quem admite as inconsistências do senso comum, o considera a base para se construir ciência, ou seja, o refinamento, sofisticação do senso comum.
Quanto à ciência, há algumas características que devem ser ressaltadas: – um conjunto organizado de conhecimentos sobre determinado objeto, em especial, obtidos mediante a observação, a experiência dos fatos e um método próprio; – um processo pelo qual o homem se relaciona com a natureza, visando dominá-la em seu benefício. Nesta discussão, a ciência nada mais é do que o senso comum refinado e disciplinado pois ambos são expressões da mesma necessidade básica, a necessidade de compreender o mundo, a fim de viver melhor e sobreviver.
Aqueles que têm a tendência de achar que o senso comum é inferior à ciência, devem lembrar que, por dezenas de milhares de anos os homens sobreviveram sem coisa alguma que se assemelhasse à ciência. Importante relembrar que o conhecimento científico é uma conquista recente da humanidade: tem, aproximadamente 400 anos (século XVII) e surgiu com a Revolução Galileana. Desde a Grécia de antes de Cristo que os homens aspiravam um conhecimento que se distinguisse do mito e do saber comum. A ciência moderna nasceu, portanto, com a determinação de um objeto específico de investigação e com o método pelo qual se faria o controle desse conhecimento. Cada ciência se torna uma ciência particular, no sentido de ter um campo delimitado de pesquisa. A física trata do movimento dos corpos; a química, da sua transformação; a biologia, do ser vivo etc.
Enfim, no cotidiano da vida, cada um enaltece a(s) forma(s) de conhecimento que embasa(m) a sua vida, mas, no mundo acadêmica, a ciência prevalece. No entanto, as diferentes formas de conhecimento têm, em comum, a organização do conhecimento.
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Referência
BRITO, Delva. Formas de conhecimento. Salvador, BA, 2021. Disponível em: <https://delvabrito.com.br/>. Acesso em: dia mês ano (Ex.: 5 jun. 2021).
