Monografia: uma expressão polêmica

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Monografia brainstorming

“A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu,
mas pensar o que ninguém ainda pensou
sobre aquilo que todo mundo vê.”
Arthur Schopenhauer

Como há certa generalização da expressão “monografia”, como se esta fosse um tipo de trabalho acadêmico, é oportuno a retomada deste termo para uma breve consideração.

Como diz um dos clássicos desta discussão, ou melhor, Délcio Vieira Salomon, a expressão monografia “[…] tem sido empregada, com sabor de jargão acadêmico, para designar “trabalho científico”. Contudo, desde a sua origem, esta expressão refere-se à especificação, ou seja, à redução de determinada abordagem a um só assunto/tema ou a um único problema, mantendo-se, assim, o seu significado etimológico (do grego): mónos (um só ou único) e graphein (escrever): dissertação sobre um assunto. Qualquer dicionário confirma que “monografia” consiste no estudo de um só ponto ou assunto, com dados históricos, artísticos, científicos etc, a ele referentes.

A partir deste significado, é comum definir “monografia” como o estudo, por escrito, de um só tema, de forma exaustiva e delimitada, o que indica que um trabalho científico, para ser monográfico, deve satisfazer às exigências de unicidade, de delimitação do tema e de análise aprofundada, o que revela que a multiplicidade de temas descaracteriza um trabalho monográfico.

Na NBR 6023/ABNT, monografia é um “Item não seriado, isto é, item completo, constituído de uma só parte, ou que se pretende completar em um número preestabelecido de partes separadas.” Esta Associação refere que, monografia no todo, inclui livro e/ou folheto (manual, guia, catálogo, enciclopédia, dicionário etc) e trabalhos acadêmicos (tese, dissertação, entre outros previstos na NBR 14724).

Assim, fica claro que o trabalho acadêmico deve ser de caráter monográfico e que a expressão “monografia” não caracteriza nenhum tipo de trabalho acadêmico, mas a sua natureza: monográfica (pois é um tipo de trabalho que aborda um único tema), como assinalado.

Na sua evolução, esta expressão ganhou significação no sentido stricto e no sentido latu.

O primeiro (sentido stricto) identifica-se com a tese (tratamento de um tema específico; original e exaustivo quanto ao aprofundamento teórico; resulta de pesquisa científica com o escopo de apresentar contribuição relevante e original à ciência). Vale destacar que, originalidade, pela própria etimologia da palavra, significa volta às fontes. Não se identifica com novidade ou singularidade, mas retorno à origem, à verdade, mesmo que esta esteja obscurecida, esquecida, arquivada, provisoriamente ou não.

O segundo (sentido lato) identifica-se com qualquer outro trabalho que resulte de pesquisa científica: dissertação, college papers das universidades americanas, artigos (científicos) etc, isto é, trabalho científico de primeira mão. Vale ressaltar que dissertação consiste no tratamento escrito e aprofundado de um só assunto ou tema, de maneira analítica, sendo a reflexão a tônica. Pode originar de pesquisa de campo ou bibliográfica, a depender das exigências do curso ou programa.

Finalmente, recomendo que qualquer que seja o tipo de trabalho acadêmico, a sua natureza deve ser monográfica para facilitar a aproximação (processual) e mais aprofundada do objeto sob investigação.


Caso o leitor queira citar este texto, deverá utilizar a referência como apresentada abaixo:
Referência

BRITO, Delva. Monografia: uma expressão polêmica. Salvador, BA, 2021. Disponível em: http://www.delvabrito.com.br. Acesso em: dia mês ano (Ex.: 20 mar. 2021).