O ato de conhecer

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O Ato de Conhecer

“Conhecer é reduzir o desconhecido ao conhecido”
Rubem Alves

No dia a dia, o ato de conhecer se manifesta de diferentes maneiras, mas de forma tão natural que nem nos damos conta da sua complexidade. Desde cedo, os mestres falam da necessidade de aprender a conhecer o mundo e do autoconhecimento. Contudo, entramos na engrenagem do conhecimento do mundo sem colocarmos em pauta o que significa conhecer: quem conhece? Como conhece? Para que conhece? O conhecimento verdadeiro é o conhecimento objetivo? O conhecimento subjetivo é falso?

A palavra francesa connaissance indica que conhecimento é nascer (naissance) com (con). Assim, os homens se marcam como diferentes dos outros seres exatamente pela capacidade de conhecer. Diz-se que o homem é capaz de conhecer porque é um ser racional. Diz-se, também, que é exatamente pela racionalidade que ele se distingue dos animais. Entretanto, não é a racionalidade sozinha que o faz distinto ou “superior” aos outros animais. O homem distingue-se dos animais pela capacidade que tem de produzir e diversificar a produção – ele produz e reproduz as suas condições de existência, diversifica essas condições, produz teoria e cultura, produz história.

Isto significa que, diferentemente dos outros animais, os homens são os únicos seres que possuem razão, capacidade de relacionar e ir além da realidade imediata. Assim, no processo de conhecimento encontram-se frente a frente a consciência e o objeto, o sujeito e o objeto. A relação entre estes dois elementos é, ao mesmo tempo, uma correlação. O sujeito só é sujeito para um objeto e o objeto para um sujeito. Ambos só são o que são enquanto o são para o outro. Mas essa correlação não é reversível. Ser sujeito consiste em apreender o objeto, ser objeto implica em ser apreendido pelo sujeito. Destarte, o conhecimento consiste nessa correlação.

Contudo, existem múltiplas interpretações acerca do real e, portanto, diferentes formas de enfocar o conhecimento. Só o exame cuidadoso possibilita compreender o que está sendo passado de obscuro e de ideológico no meio cultural e recebido por todos, na maioria das vezes, sem crítica. Embora o conhecimento seja, tradicionalmente, definido como uma relação entre sujeito e objeto, esta não é uma relação passiva, limitada internamente ao sujeito. Ao contrário, não há um objeto que seria dado ou mostrado a um sujeito, que agiria sobre ele como se fosse um elemento passivo e, o sujeito, um elemento ativo. Ao contrário: há uma intervenção subjetiva do sujeito social no objeto.

Há diferentes formas de entender esta relação. Tomemos o exemplo do conhecimento sensível: a capacidade de perceber, de sentir, é comum a todos os homens, entretanto, para o empirismo, o olho humano perceberia o mundo de uma só maneira, isto é, passivamente, na medida que receberia do objeto exterior impressões sensíveis que atuariam sobre ele enquanto órgão visual. Já para o idealismo, forma exagerada de racionalismo, o “olho do espírito”, e não o “olho sensível”, construiria (e não perceberia) o seu objeto de conhecimento como um fato de consciência: passividade do sujeito que recebe a impressão do objeto de fora, por um lado; atividade auto reflexionante, e, portanto, interna e aparente, de outro. Para o materialismo histórico e dialético, o olho seria o olho social. Assim, mesmo a formação dos nossos cinco sentidos, como diz Marx, é um trabalho de toda a história universal até nossos dias. Por exemplo, o olho torna-se olho humano e seu objeto um objeto social, humano, vindo do homem para o homem.

Nesta perspectiva, o conhecimento não é simples reflexo do real e deve desnudar, por trás da aparência, como as coisas realmente são. Para se conhecer, parte-se dos fenômenos da realidade, reconstrói-os no pensamento através de um processo de análise e, em seguida, reúne-os na realidade. Isto significa que o objeto do conhecimento é, para o pensamento, um processo de síntese, um resultado (e não um ponto de partida). Ele é a reprodução do concreto (real) sob a forma de concreto pensado. O conhecimento é, então, um processo de apropriação do real e não de formação do real. A correspondência entre objeto real (concreto) e objeto do conhecimento (concreto pensado) dá-se na relação teoria versus prática.


Caso o leitor queira citar este texto, deverá utilizar a referência como apresentada abaixo:
Referência

BRITO, Delva. O ato de conhecer. Salvador, BA, 2021. Disponível em: http://www.delvabrito.com.br. Acesso em: dia mês ano (Ex.: 20 mar. 2021).