“Não será verdade, que cada ciência, no fim,
se reduz a um certo tipo de mitologia?”
(De uma carta de Freud a Einsten, 1932)
Este texto tem como base a obra “Filosofia da ciência – introdução ao jogo e suas regras”, de Rubem Alves, para quem o cientista virou um mito e todo mito é perigoso porque induz o comportamento e inibe o pensamento. Daí a necessidade de acabar com o mito de que o cientista pensa melhor do que os outros e acreditar que a aprendizagem da ciência é um processo de desenvolvimento progressivo do senso comum.
Porque esta preocupação? Em geral, as “pessoas comuns” mitificam as palavras cientista e ciência. As imagens mais comuns, conforme este autor, são: – do gênio louco que inventa coisas fantásticas; – do tipo excêntrico, ex-cêntrico, fora do centro, manso, distraído; – do indivíduo que pensa o tempo todo em fórmulas incompreensíveis ao comum dos mortais; – de alguém que fala com autoridade e a quem os outros devem ouvir e obedecer e acrescento: – de uma atividade, exclusiva, do mundo acadêmico.
O respeito à ciência é indiscutível, mas a necessidade de desmitificá-la e, também, de revisitar o senso comum com um olhar acurado, mas com a consciência de que este tipo de conhecimento não é ciência, é fato. Quando fiz o doutorado, a minha tese tratou da produção/reprodução de conhecimentos no trabalho, privilegiando a relação senso comum versus ciência. Parti de produções realizadas no processo de trabalho, denominadas pelos trabalhadores de improvisação, tema que abordarei em outra oportunidade.
Retomando o que propus para este texto, uma reflexão sobre o mito da ciência e do cientista, a orientação de Rubem Alves consiste em visualizar o senso comum através de pessoas comuns; depois, tomar essas pessoas comuns e hipertrofiar um dos seus órgãos, atrofiando outros. Ao final, poderá ser observado que a ciência é uma metamorfose do senso comum e, se este for compreendido, a ciência será mais facilmente entendida, ressaltando que a ciência não acredita em magia, mas o senso comum acredita.
Nesta reflexão, este filósofo faz a seguinte pergunta: como funciona o senso comum? Responde: “Imagine que, quando alguém tem um problema, o que interessaria saber de imediato seria o seguinte: – como funcionaria o senso comum? – O que a pessoa faria com as suas mãos e com o seu cérebro? – Que pensamentos orientariam as suas mãos?”
Para este filósofo, isto significa que é o defeito que faz a gente pensar pois o que não é problemático nem problematizado não é pensado. Fernando Pessoa já dizia que pensamento é doença dos olhos, mas Rubem Alves nos ensina que não é bem assim, ou seja, que pensamento é doença do corpo. Com todo respeito a estas ilustres figuras, o meu entendimento é o de que pensamento é doença dos olhos e do corpo e que o importante mesmo é atentar para o fato de que todo pensamento começa com um problema pois quem não é capaz de perceber e formular problemas com clareza não pode fazer ciência.
Mesmo considerando o conhecimento do senso comum, o problema é o ponto de partida. Podemos refletir sobre isto, partindo da premissa apresentada por Rubem Alves, ou seja, “não existe problema sem solução”. Por mais complicado que seja um problema, sempre há solução. A seguir, uma história do senso comum que ilustra esta afirmativa. Não tenho a referência, mas sei que ela circulou em uma mídia social. Vamos lá:
__“Um homem comprou um carro que tinha um defeito curioso. Por isto, enviou uma carta à fábrica responsável, relatando a respectiva problemática. O conteúdo da carta foi o seguinte: “Não os culpo se não responderem pois parece loucura! Toda noite, depois do jantar, pego o meu carro e vou tomar sorvete. Quando compro sorvete de creme, o carro não funciona. Quando compro sorvete de outro sabor, ele funciona imediatamente. Por que isso ocorre?”
Observem que, aqui, emerge o que podemos denominar de Problema.
A carta foi parar na mesa do presidente da fábrica, que destacou o seu melhor engenheiro para desvendar o mistério. No dia seguinte, o engenheiro chegou à casa do cliente na hora em que ele saía para comprar sorvete. Então, foram juntos à sorveteria e pediram sorvete de creme. Voltaram ao carro e esse não funcionou. No dia seguinte, repetiram o passeio e pediram sorvete de baunilha. O carro funcionou. Nos dois dias subsequentes pediram sorvete de nozes e de framboesa. O carro decolou. No quinto dia, pediram sorvete de creme (o mesmo do primeiro dia) e o motor não funcionou.
Inacreditável, disse o engenheiro!
A conclusão possível seria: o carro é alérgico a sorvete de creme [Hipótese 1]. Mas, o que fazer diante desta hipótese? Trocar o óleo por creme antialérgico? O engenheiro não podia acreditar naquilo. Passou uma semana cruzando dados e comparando hipóteses.
Um dia, olhando as suas anotações, o engenheiro achou uma pista: o homem levava menos tempo para comprar sorvete de creme. Como era um sabor bastante apreciado, o latão com creme ficava à mão do atendente, enquanto que, para pegar os outros sabores, ele lavava e enxugava a concha e, ainda, dava alguns passos e mais outros para entregá-lo ao cliente. Além disso, o de creme custava 10 centavos e, os de outros sabores, 12. Como o homem nunca tinha 2(dois) centavos trocados, quando comprava sorvete de chocolate ou de morango tinha de esperar para receber e conferir o troco. Isso representava 1(um) minuto a mais. Com isto, o mistério ganhou nova configuração: não se tratava de o carro gostar ou não de sorvete de creme. A questão era: por que ele não funcionava quando se levava menos tempo? [Problema 2]. O engenheiro abriu o motor, conectou aparelhos a várias peças e descobriu que havia um relé com uma ventoinha defeituosa, que causava um problema de resfriamento. [Verificação da Hipótese 2]
Conclusão: quando o homem comprava sorvete de sabores como pistache ou flocos, demorava tempo suficiente para o relé esfriar; quando pedia sorvete de creme, o serviço era mais ágil, o relé ainda estava quente e o carro não funcionava.
Esclarecido o mistério, ficou a lição: em ciência ou no senso comum não se deve “embarcar” nas aparências. Deve-se estudar o problema com cuidado e encontrar o caminho certo porque, por mais complicado que seja, como defende Rubem Ales, não há problema sem solução.
A partir desta “história”, pode-se observar que, no cotidiano, geralmente se dispõe de uma problemática onde se insere um ou vários problemas. Mesmo de forma inconsciente, formulam-se hipóteses, definem-se objetivos, verificam-se hipóteses etc, raciocínio usado para se fazer ciência.
Reveja a história, de forma ainda mais simplificada: – o sujeito gostava de tomar sorvete diariamente, mas deparou com problemas no funcionamento do seu carro; – dessa problemática, extraiu uma questão/problema; formulou hipóteses; verificou as hipóteses formuladas; descobriu novas informações; encontrou resposta para o seu problema.
Isto significa que mesmo o conhecimento do senso comum emerge de problema, de um objeto colocado sob questão, que necessita de solução, pois, quando não há problema não há necessidade de pensar em respostas. Deste modo, como nos ensina Rubem Alves, a primeira opção é ver o problema com clareza pois, tanto na ciência como no senso comum há uma estreita relação entre ver com clareza e dizer com clareza. Enunciar com clareza o problema é indicar, antes de mais nada, de que partes ele se compõe. Este é um procedimento de análise.
Mas, por onde começa a solução do problema? Começa de onde se deseja chegar, para evitar o comportamento errático e desordenado a que se dá o nome de `tentativa e erro´, uma vez que, se a pessoa não sabe para onde ir, andará a esmo, como está exemplificado em “Alice no país das maravilhas”, no seu diálogo com o Gato Cheshire. Nesta direção, lembremo-nos da mensagem de Rubem Alves: “O sábio começa no fim; o tolo termina no começo.”
Estas considerações remetem à seguinte questão: quando desmitificados o cientista e a ciência como propriedades de gênios, os trabalhadores perderão o medo de: expor as suas ideias, argumentar e contra argumentar, mesmo correndo riscos, produzir ou inovar no processo do trabalho, fazer descrições e análises com base na realidade onde atuam, começando por situações/problemas que necessitem de soluções.
Caso o leitor queira citar este texto, deverá utilizar a referência como apresentada abaixo:
Referência
BRITO, Delva. Uma reflexão sobre o mito do cientista e da ciência. Salvador, BA, 2021. Disponível em: https://www.delvabrito.com.br. Acesso em: dia mês ano (Ex.: 20 mar. 2021).
